sexta-feira, 17 de maio de 2019

Lei de Murphy

"Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível."

puto mais novo cá de casa anda há semanas chato, choroso, febril, não dorme, não come. Se somarmos a isto um aneurisma cerebral e a necessidade de evitarmos que ele chore, para não fazer pressão e não rebentar, ao mínimo sintoma, lá vamos nós ao hospital despistar os desconfortos. Passamos a vida nisto. E ontem não foi excepção! Entrei nas urgências às 09:30, saí às 13:30. 'Nada mau até, já cá passei dias inteiros' - pensei eu! No entanto, estava com uma neura descomunal. Não durmo há 5 meses, temos de estar em alerta constante, passo a vida em ambiente hospitalar (um dia desta semana tivemos de ir a Lisboa só mostrar exames e voltar!)... confesso que há sítios mais interessantes onde me apetecesse estar!
Mas pronto, cheguei a casa às 13:30. Lar, doce lar. O dia ia, finalmente, começar a correr bem. O miúdo até estava mais bem disposto.
#soquenao
Ao final da tarde, vou buscar a Carolina. Quando se estava a preparar para tomar banho e vestir o pijama, cai abaixo da cama e racha a cabeça. Eu sozinha com os dois. Arranjo quem me fique com o puto e sigo para as urgências com ela. Cheguei a temer que chamassem a comissão de protecção de menores!!! Chego à triagem: 'A sua cara não me é estranha! Não esteve aqui de manhã com outro bebé Esteves?' 😏😅
Os meus filhos andam a competir, para ver quem tem mais problemas na cabeça, de certeza! Um arranjou um aneurisma, a outra um traumatismo craniano!
Estou a ponderar seriamente deixá-los lá no hospital. Ou arranjar uma via verde de acesso às urgências.
Lembram-se da Lei de Murphy? Foi isso que sucedeu ontem: 
"Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível."

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Pérolas soltas #18

Tenho um livro, que estou a ler, em cima do sofá, com o marcador na respetiva página onde fiquei da última vez que peguei nele (ou melhor... tinha!).
Dona Carolina, pega nele, tira o marcador do sítio e folheia-o.
Quando dei conta, resmunguei, esperneei, gritei (que basicamente é o meu mood nos últimos tempos - tenho de fazer um retiro!).
Ela, com a maior calma do mundo: 'Mas oh mãe, não podes ser assim. Não podes ser invejosa. Se eu também quero ver o livro, tens de emprestar as coisas! Eu também empresto as minhas.' 

[Tentei contra-argumentar, mas a felicidade de perceber que os meus conselhos ('não sejas invejosa') dão frutos, fez-me passar logo a neura!]

terça-feira, 23 de abril de 2019

A febre do youtube!

A minha filha - como grande parte das crianças que conheço - anda viciadona nos vídeos do Luccas Neto. Mea culpa. Às vezes o cansaço é tanto e a paciência tão pouca que lá lhe dou o tablet ou o telemóvel para a mão. Mais eu deixasse e mais ela via.
Só que esta febre tem consequências. E não é que agora a criatura me fala com expressões e sotaque brasileiro? Entre outras, sai-se com estas pérolas:

(a falar com o meu irmão): 'oh meu muleque!'
'ups, acho que fiz uma besteirinha!'
'vamos comer carne moída?'
'vamos fazer uma trolagem ao pai!'

Agora que penso nisto, vou só ali arranjar maneira de inverter a situação! Oh God!

terça-feira, 2 de abril de 2019

Não me morras, filho! #3

[Texto escrito a 26/11/2018]

Sabemos que, se tudo correr como previsto, o Rodriguinho nascerá a 12/12. E é a única certeza que temos!
O hospital tornou-se num local doloroso para se estar. E, ultimamente, as vozes que temos ouvido ecoam frases soltas:
'Gostava tanto de ter respostas para vos dar...'
'Este bebé é um kinder surpresa. Nós não fazemos a mínima ideia do que vamos encontrar...'
'Toda a gente, neste hospital, desde a obstetrícia à neurocirurgia, passando pela neonatologia e urgências, está a par do vosso caso...'
'Anda toda a gente aqui com este bebé nas palminhas das mãos...'
'A nossa maior angústia enquanto médicos é não saber com o que contamos...'
'Se for preciso fazer cirurgia especializada, não há nenhum hospital em Portugal que a faça...'

Durante todo este processo, só chorei uma vez. E foi quando, durante a ecografia e perante tanto silêncio, cheguei a pensar que o meu filho estava morto. E isso sim, era a única coisa verdadeiramente assustadora e irreversível. Depois de perceber que não, mais nada nos dava o direito de queixar!

sexta-feira, 22 de março de 2019

Não me morras, filho! #2

(Texto escrito a 13/11/2018)

Depois do diagnóstico incerto surgido na última ecografia, tinha uma ressonância magnética fetal agendada para uma semana depois. 7 dias de ansiedade e, chegados ao hospital, o que é que sucede? Deparamo-nos com a greve dos técnicos de diagnóstico. Mais 7 dias de apneia. Como se pede a um pai e a uma mãe para aguentar isto?
Duas semanas e meia depois, nova consulta para analisar o resultado da ressonância que, à partida corroboraria a teoria da existência de uma lesão cística cerebral!
Mas... afinal, havia uma reviravolta inesperada. Entrámos no consultório e a cara de incerteza da médica era assustadoramente desesperante. E, juntamente com uma enfermeira da neonatologia, avançam: 

'Temos muita coisa para vos dizer, mas nenhuma certeza, infelizmente! Estamos perante uma situação muito rara e tivemos de enviar o caso para Toronto - Canadá, para uma equipa médica de lá analisar. Após avaliação da ressonância, o neurologista acha - e continuamos no campo das especulações - que se trata de uma malformação venosa trombosada (algo similar a um aneurisma cerebral). Mas, nesta fase, é impossível o estabelecimento de qualquer prognóstico.'

E o chão volta a abrir-se diante de nós.

São agendadas ecografias e consultas semanais. Nova ressonância magnética, para uma avaliação mais próxima do parto. É decidido que terá, obrigatoriamente, que ser feita uma cesariana. E é destacada uma equipa médica especializada para estar presente no dia da cirurgia. 

Neste momento, entoa na nossa cabeça a frase: 'Desculpem, mas nós não temos respostas!'

Não faz mal. Porque eu tenho uma certeza: Este menino vai ser um lutador! Forte e determinado. Ainda não nasceu e eu já lhe sinto essa garra! Interage comigo em cada pontapé que me dá, com a força suficiente de quem mostra que não há nada que o limite!
Tenho tanto orgulho em ti, meu amor! 

quinta-feira, 21 de março de 2019

Pérolas soltas #17

[Eu, no dia 18]: 'Filha, amanhã é o dia do pai!'
[Ela]: 'E quando é o dia do filho? 😕 É que no outro dia foi dia da mulher e eu sou mulher, mas o mano fica sem nenhum dia para ele!!!'

(Ás vezes esqueço-me que esta miúda só tem 3 anos!)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Não me morras, filho! #1

[texto escrito a 25/10/2018 - depois de ter feito ecografia morfológica do 3º trimestre]

Sou uma pessoa, por norma, muito positiva! Nunca acredito que algo possa correr mal, sendo que, se por um lado, esta forma de estar me permite relaxar e aproveitar a vida; por outro, nunca dá espaço para que eu esteja preparada para o pior.

Mas há um dia... 
...em que vamos (eu e o pai da criança) todos entusiasmados fazer a ecografia do terceiro trimestre. Com uma gravidez super tranquila até então, as nossas conversas, pelo caminho, oscilam entre o desejo de ouvir o coraçãozinho e as minhas gargalhadas pela necessidade de tira-teimas por parte do pai de que seria mesmo um menino! Ninguém vai com receio a uma ecografia às 32 semanas, se tudo tiver estado bem até então!
Entro, deito-me na marquesa, começa a ecografia:
'Ora então, o vosso bebé está de cabeça para baixo...' E segue-se um silêncio incómodo. E movimentações anormais. A médica sai, vai chamar a colega que tinha feito a ecografia do 2º trimestre, comparam resultados... Liga para um médico neurologista...
O meu marido foi o primeiro a perceber que algo se passava (talvez por conseguir ver a cara delas): 'Está tudo bem?'
[Sem resposta. O silêncio continuava assustador-constrangedor]
Depois, comecei a sentir-me mal e perguntei eu: 'Diga-me que está tudo bem!' Senti-me a apagar.
Desta vez tivemos resposta, mas não a desejada: 'Não lhe posso dizer isso. Eu já falo com vocês!'
Tivemos a certeza. Algo não estava bem. E era grave. As lágrimas caiam-nos sem autorização e eu comecei a desfalecer. Mais correrias. Copos de água com açúcar e um aparelho que não conseguiu medir-me a tensão, de tão baixa que estava. Só apitava.
Estabilizaram, primeiro, o meu sistema nervoso. Depois, o diagnóstico:
'O vosso filho tem uma malformação (potencial tumor) numa zona assustadora do cérebro.'
Parte de nós morreu ali. Nunca ninguém nos prepara para isto. 
'Não vos consigo adiantar muito mais. É uma zona delicada, pela inacessibilidade. O quisto é pequeno. Isto são situações raríssimas. O espectro do que pode acontecer oscila entre o "nada" e o "tudo". E só teremos real percepção das implicações neurológicas ou motoras que isto poderá ter assim que o bebé nascer. Para já, vamos marcar duas ressonâncias magnéticas fetais com urgência, para conseguirmos resultados mais precisos.'
Uma hora depois de termos entrado no consultório, saímos. Em lágrimas, embrulhados um no outro, alheios aos olhares empáticos da quantidade de pessoas que se acumulou na sala de espera. 

Recuso-me a aceitar que algo de mau possa acontecer. Entreguei nas mãos de Deus e tenho a certeza que Ele não me falhará. Para já, tenho a firme convicção de que nada na vida acontece por acaso. Tinha de ser assim e haveremos de perceber porquê. 
Sei, apenas, meu filho, que ainda não nasceste e já és um guerreiro, já estás a dar luta! E, nesta batalha da vida, sairás, de certeza, vencedor! Amo-te tanto. Amamos-te tanto. Eu, o pai e a mana já não sabemos viver sem ti. Por isso, nunca nos morras, filho, por favor! 

[...]